Eu ia para o trabalho caminhando, coisa que faço quase todos os dias nos últimos três meses. Ela, cabeça baixa, sentada em um espaço onde há uma espécie de academia ao ar livre. A cidade oferta academia em público, saúde(assistência) já quase não...
Bom, eu passei por ela, olhei para trás, ela de cabeça baixa, um boné caído no chão. Ela parecia trêmula; e em sua mão, bem fechada, uma nota de dois reais. Eu não sabia o que ela sentia, estava de short e camiseta. Entretanto, o modo como estava encolhida aparentava frio. Voltei e toquei seu ombro, ao mesmo tempo em que, peguei o boné no chão. Olhei pra ela e ela permanecia com os olhos baixos, creio que meio adormecida. Disse-lhe:" Oi.Olhe seu boné." Ela levantou os olhos, olhos muito grandes! Os maiores olhos que eu vi em minha vida! Disse-lhe:" Tome essa água"(deixando a minha garrafa de água ao seu lado). Ela olhou para a garrafa, não disse nada, sorriu. Um sorriso com poucos dentes, mas um sorriso agradecido.
Saí caminhando marcada por aquele olhar, um olhar de rua, um olhar de manhã de dia de semana, um olhar de cidade sitiada, um olhar que diz muito, mesmo sem dizer nada...
quarta-feira, 10 de abril de 2019
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019
A "perda" dos meninos
Ontem foi o Pedro,
anteontem o Kadu
alguns dias atrás os meninos da concentração do Urubu
Cada dia uma mãe que chora
Cada lágrima que não sabe a hora
o que nós sabemos é que essa realidade vem
em nu e cru
O corpo negro estendido
ou o corpo que dança ferido
a revolta do povo
não tem norte
tem sul!
O medo branco estendido ao genocídio
é insuficiente
para tornar inerte a febre
por samba
alegria
é preciso reverberar o que se pode
com rap
funk
tambores
soul
e blues
anteontem o Kadu
alguns dias atrás os meninos da concentração do Urubu
Cada dia uma mãe que chora
Cada lágrima que não sabe a hora
o que nós sabemos é que essa realidade vem
em nu e cru
O corpo negro estendido
ou o corpo que dança ferido
a revolta do povo
não tem norte
tem sul!
O medo branco estendido ao genocídio
é insuficiente
para tornar inerte a febre
por samba
alegria
é preciso reverberar o que se pode
com rap
funk
tambores
soul
e blues
segunda-feira, 31 de dezembro de 2018
Aos inimigos, a nossa alegria
Aos que estão do outro lado da trincheira
Nem um minuto da nossa melancolia
Só fogos de artifícios e alegria
A quem emana descaso
Quem ganha por patifaria
Só a nossa afronta
Nossa vontade
Nossa sabedoria
A quem nos mata
Nos prende
Nos explora, por trabalho
Por corpo
Por abusar do nosso ser, filosofia
Entreguemos nosso ódio em forma de força
De SINFONIA!
sexta-feira, 21 de dezembro de 2018
A arte não serve pra nada
Arte serve pra repetir
Quase neuroticamente
É pra cansar
Pra doer
Repetir, repetir
Repetir
Até virar verdade
A arte não serve pra dar alegria
Nem pra desejar mudança
É pra dar um soco
Quebrar a cara
Vomitar
Cuspir
Arte é sujeira jogada em cima da hipocrisia dos falantes
Seres que falam
Pensam que pensam
Arte é pra adoecer
Encher de dúvida
Ser dos pobres
Embora seja ricamente apropriada
Arte não é pra perdoar pecados
Não tem receita
Simplesmente sai
De dentro das vísceras
Causa nojo
Espasmo
Arritmia!
E desfaz a prepotência
De quem se acha
Artista
sexta-feira, 30 de novembro de 2018
Esse poema é pra toda mulher presa
Esse poema não sabe nada de teoria poética
Nem de métrica
Nem de simetria
Esse poema sangra todo mês por natureza(?)
A mulher que sangra sem poder absorver
a mulher que não tem nada de higiênico para absorver o sangue da vida
a mulher presa em todo cárcere
a mulher transexual presa
e aquela presa nos familiares
Ele chora todo mês ou semana de visita
Esse poema é pra mãe negra que chora o filho morto
Ou a esposa que sangra na alma o marido preso
Esse poema não conhece a vida doce das madames
Nem se interessa com seus vinhos, seus vexames
Ele sabe em que lugar, de classe, está colocado
Esse poema não é decassílabo
E nem tem rima rica
De rico aqui só nosso ódio
Só o que sobra do vestígio
Daquilo que te faz besta fera
Que te coloca de nádegas abertas
Nas filas de visita
No sol, na chuva ou na brisa
Esse poema faz planos
Faz comida nova no domingo
Coloca na marmita
Assa bolo e faz de tudo que é possível!
Para lá, dentro da cadeia
Na portaria,
Retirarem pedaço por pedaço,
Procurando chip.
Procurando um clips.
Tentando criminalizar aquela família
Esse poema é também, quem sabe, pra mulher presa em abusos
De homens e de mulheres!
Esse poema é pela não prisão de ideias!!!!
Esse poema não acredita em nada que venha de uma grade
Só é possível em liberdade
Esse poema não tem rima, nem tem medo.
sábado, 17 de novembro de 2018
Com outro gosto de café e de vida*
O silêncio da casa de Margarida aciona no espectador a agonia do inusitado, ao mesmo tempo em que, prevê o impacto contraditório pela cenas alegres e barulhentas do princípio do filme.
Café com canela, além de um passeio pela magia do cinema é a captura do espectador para entrada em seu interior, sem espaço para fuga de pensamento. Como nas próprias palavras de Margarida: "um bom filme quer te experimentar e ser experimentado!"
Também, e não menos, a maestria da jovem Violeta que; sendo mãe, cuidadora da avó, salgadeira, esposa, consegue de forma doce, mas de forma incisiva uma porta de saída do luto de sua antiga professora.
Café e canela, café com canela é a retomada do sabor da vida, é a força do(a) negro(a), é a sabedoria da religiosidade de matriz africana e, junto com tudo isso, o poder feminino no lidar com: o luto, a perda, a depressão, a morte, com a tentativa de recolocar o laço da vida em seu lugar.
E tempos de desgostos, canela e café é reviver o gosto, o quente, o brilho.
**
* sobre o Filme "Café com Canela, de Ary Rosa e Glenda Nicácio, Brasil, 2017. Ficção 100m, exibido na Mostra de Cinema e Direitos Humanos em Belo Horizonte
** fotografia de divulgação retirada do Google
terça-feira, 23 de outubro de 2018
Nós sim, eles não
Nós temos medo
Eles também
Nós admitimos
Eles não
Nós seguimos adiante com verdade
Eles não
Nós temos história
eles não
Nós sobrevivemos à outras ditaduras
Eles NEM sabem do que se trata e,
idiotamente
defendem uma
Nós não vamos parar NUNCA
Eles, nem nunca vieram
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