terça-feira, 27 de maio de 2014

Por um conto

Nem conto
o que se conta
cada um sabe o que conta
quanta conta
se desconta
se desfaz
se apronta
e, no fim, o que conta
é um conto sem conta








segunda-feira, 19 de maio de 2014

Poética da cara

Eu?
que não sei que é
nem que sou
se sou assim
sorriso pela metade
sem medo de mim
dando a cara
mostrando o que?
Sem saber muito bem
o que faz
mas se faz, tenta saber fazer!

terça-feira, 6 de maio de 2014

Estrangeiros e de cabeça para baixo*

Ela passava pela rua e ouvia comentários:" onde ele está?" "para onde foi?", "não sei, estão batendo nele lá embaixo, eu acho!"
Continuou andando e viu uma pequena multidão, todos olhavam para o meio do círculo, mas ela não via. Via apenas olhares, alguns murmúrios, e quando conseguiu ver, o jovem estava deitado, de cabeça virada para o chão, mãos presas por um homem, dizia-se ser policial, não trazia credencial, não estava uniformizado...nada disso ela via.
Só via, ouvia que era preciso bater no rapaz, era preciso amarrá-lo no poste, colocar fogo no mesmo. Impressionante mas nada daquilo era natural, mesmo sendo repetido, repetido, insistente na cidade onde ela nasceu, no país em que ela vive! Chegou a lembrar dos casos de fogo, de morte, de matar o outro na rua.
Ouvia que ele tinha roubado um celular, via o celular na mão de sua proprietária(a mesma repetia ao celular a mesma cena e dizia:"vou ficar aqui é lógico! vou esperar a polícia chegar!) ela o teve de volta, mas insistia. Insistia em quê?
Para ela que via já estava tudo consumado, a pena já tinha sido dada, o vexame a que o jovem foi submetido, a vergonha, a exposição! Talvez ali se coubesse a palavra que tal uma justiça restaurativa? Mas não!
Não! Eles, elas queriam mais! Bater, matar, linchar(com ch?)!
Era terrível presenciar o fato, mas permanecia ali, parada, tentava falar, mas pouco saiu de sua boca, só um:"por quê ele está deitado assim no chão?" As respostas eram evasivas ou indiferentes, e os olhares direcionados à ela era como se a mesma não fosse desse mundo. Um ser estrangeiro que não entendia nada de justiça!
Sim, ela era mesmo estrangeira e continuaria a ser, porque sem entender iria continuar, afinal a propriedade foi violentada, era um celular(!) era uma mulher! " por quê você não rouba de homem?" disse um dos ditos policiais ao jovem. Diga-se também policias que prenderam o jovem sem nenhuma credencial e com aval dos policiais que chegam logo após na cena urbana, no caos justiceiro!

Era e continuaria a ser estrangeira num mundo onde a justiça funciona para seres de uma determinada cor, de um determinado local e de determinadas posturas. Era sim estrangeira, mas a ironia do se estrangeirar não a repudiava, repudiava e repudia o querer ser formatado onde se coloca o ter em detrimento do ser...era mesmo estrangeira! E permaneceria...









*Esse(essa?) vai em como "presente" aos transeuntes que abordaram um jovem hoje na esquina de Afonso Pena com Guajajaras..



domingo, 13 de abril de 2014

Pixo

Argumento feito em tinta
sem lápis e sem papel
o "elemento" que pinta
é o sujeito com lata e pincel

A irracionalidade faminta
numa reflexão no arranha-céu
A complexidade não se finda
na marca feita sem véu

Quanto mais extinta
mais se multiplica sem troféu
a literalidade cognitiva
do que se inscreve num insano fel.




quarta-feira, 19 de março de 2014

Somos Cláudias


Somos Cláudias
Douglas, Cristianos e Leandros
Somos Sandros antes do 174
somos filhos
somos mães e avós
pais de sangue e de coração
somos um deputado que clama por justiça
somos mais que um partido
corações e corpos feridos!
Somos vozes que choram e tentam abrir caminhos
somos em uníssono o canto da vontade de não mais morrer!
Somos favela, quebrada, sonho e realidade
uma fissura na sua verdade
somos cidade!
Um poema que corta bem no fundo de sua vaidade
do seu poder...
somos a construção do nosso querer
Somos a língua da nova geração
intempestiva
ampliando os versos
rebatendo os debates falidos
repetindo refrões resumidos:" Paz, Justiça e Liberdade!"
Somos uma paz que não nega o conflito
uma guerra sem balas
uma batalha de rimas
uma fome de trégua!
Somos luz que ainda ofuscada
semeia outros caminhos
somos loucos correndo atrás de moinhos
somos a esperança que não treme diante de vossa mão ensanguentada.
Bem mais que só dor lamentada!
Temos muitos nomes, não entramos só em vossas estatísticas
não aceitamos as vossas falsas perícias
não alimentamos vossos canais com as gélidas notícias.
Somos mãos que se dão e fazem juntas um laço
somos juntos um forte e coerente abraço
porque nós temos cor daquilo que se forjará nesse nosso espaço.









quinta-feira, 13 de março de 2014

Receita

Ponha a palavra ao pé da cachoeira
estique-a até a montanha
massageie-a até brilhar
deixe que o verbo a atravesse...
um pouco de calor
e um fermento conjuntivo
e dá-se a obra!

terça-feira, 11 de março de 2014

Provocante

O melhor/pior da palavra é insignificar-se
não ser traduzível
semear dúvida
provocar rompimentos
e também enlaces
A palavra não age, mas sugere
e o corpo (i)racionalizando se lança em ação
A palavra provoca
(in)voca
o ser
a uma outra expressão