Se for pra ser igual
pra quê a chance de ser diferente?
é igual na diferença
e desigual na indiferença
se for pra repetir sem renovar
pra quê a invenção
se só gera desavença?
se for pra oportunizar pra poucos
pra quê existe pra todos?
a ganância e a falência
a sobreposição e a incompetência
a involução e nada de sapiência
sagacidade é caminhada dura
e não há possibilidade
na simples interferência
quinta-feira, 11 de junho de 2015
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Por esses condenados que morrem, viverão*
Essa penas de morte nunca passadas, não passarão
Essa vidas riscadas do mapa
e traçadas nos gráficos
em notícias falsas
não serão em vão
são meninos
sempre da mesma cor
sempre do mesmo jeito
sempre da mesma morte.
Vivos,
pelo menos em nossa memória serão.
Ali na calada da noite
ou à luz do dia
pelo Estado detonados, pela sua dura mão
Mortos, torturados, dissecados pelo poder império
muito mais que entre si, entre os irmãos
Os mortos pelo Direito
Democrático, de respeito
este mundo ensurdecerão
Não tem como calar essas vozes
elas ecoam por mais que as tendam ao não
não há como ter isso como norte
porque é para o sul nossa direção!
Vocês nos matam
mas reproduzimos
para além da morte, o embrião
Nossos versos
cadenciam
num além vida
pra sempre entre nós é vida o que verão!
* em alusão ao livro Abusado, o dono do Morro dona Marta, onde Caco Barcellos na nota do autor escreve: " Durante os quatro anos de produção do livro, muitos deles foram presos, torturados, mortos sempre de forma brutal. A experiência reforçou meu repúdio à cultura da punição perversa, contra quem já nasceu condenado a todas as formas de injustiça
domingo, 22 de março de 2015
Aquelas duas, três mulheres*
Ela quase não podia acreditar,
mas era verdade. Ali estavam elas, muitas elas, muitas mulheres, e esse gostar
de mulheres que não lhe cabia e lhe fazia às vezes explodir também lhe causava
repulsas às vezes. O sensor do coração associado ao da cabeça lhe fazia sentir
a garganta como se amarrada ou engolindo uma bola de futebol. As pernas não
respeitavam seus comandos e os olhos pareciam tão esbugalhados como uma criança
assistindo à aterrissagem de uma nave espacial em seu planeta.
Vinda de uma cidade interiorana
ela não poderia imaginar-se tão amante, tão amada e, entretanto tão excluída de
relações tão importantes para os seres humanos, embora os estudos
universitários a fizessem refletir que, se era mesmo necessário cumprir os
rituais da tradição, família e propriedade privada ... Sonhava uma vida livre e
sentindo os prazeres não aceitos, e muitas vezes, repelidos pela ordem social.
Apesar disso tudo saber não se privava de vivê-los. Chegou a desejar a morte de
um homem homofóbico num dia saindo de uma festa e estando feliz com suas
companheiras, foram todas vítimas de uma cena de preconceito imperdoável! Mas
isso tudo não lhe retirava a vontade de seguir em frente, afora todas essas
situações grotescas no convívio social, era somente essa dor da perda, ou
talvez de um contato cortado que, algumas vezes a colocava em dissonância com
as alegrias vividas nos amores, amizades e aprendizados no convívio social.
Então, aquela cena, num lugar
completamente adverso a colocava diante de seu passado, diante de suas
escolhas, diante daquilo pelo qual desejava viver. Encontrar aquelas duas
mulheres, tão suas, tão afastadas, mas tão sendo suas de coração, de genética,
de realidade a colocava em meio à um turbilhão de cenas que nunca mais
esqueceria e para a qual não poderia mais negar e além disso era preciso
divulgar!
Era a cena da libertação, era a
cena de certa aceitação, era a vivência real, mas muito representativa de um
imaginário que não podia acreditar. Amava muito aquelas mulheres talvez não
tanto quanto e, certamente, de modo bem diferente do qual amava as outras todas
mulheres com que experimentou a vida; todavia essa experiência do primeiro
amor, dos amores carnais sem sexo, do prazeres do leite materno, do gozo da
vivência no útero, das falcatruas sociais de pessoas gêmeas lhe passavam todas em
apenas um segundo na cabeça, pois não era fácil retomar em público e perdoar socialmente
e fraternalmente o preconceito!
Mas elas estavam ali, eram duas
mulheres, uma idêntica a si, embora se constituindo inteiramente diferente
permitindo à ambas serem duas e não somente uma, embora a placenta tenha sido
dividida, embora as vontades compartilhadas. Estavam ali as duas mulheres da
sua vida, pedindo seu olhar, chorando junto com ela. Revivendo esse amor ora
abandonado, ora perdido, mas muito ali recuperado, tornando a vida mais
possível e o amor sem a propriedade, sem as agressões sociais, possibilitado.
* para minha amiga Carina e seus amores
quinta-feira, 12 de março de 2015
Palavra não alivia
eu fico de cara com essa gente
que usa palavra
pra aliviar tensões
inibir os sentidos
calar os gemidos
ou submeter soluções
palavra foi feita pra agredir
somos cruéis
por natureza linguística!
palavra não tem meio-termo
não tem outro jeito
dita ou escrita
resposta pede aqui ou à ermo!
eu fico pensando
pra quê rimar com palavras?
elas não resolvem nada
elas não te escutam
são indiferentes
são escusas
As palavras escolhem um terreno fértil
elas querem te descontrolar
desconfortar
ou achar que te fazem exitoso
pura mentira!
o verbo, esse aí, só te torna ainda mais ambicioso
Palavra boa mesmo
é a escolhida a dedo
mas também aquela dita sem medo
recuperada
tornada pedra
ou dilapidada
palavra tem ou não compromisso
presta muitas vezes algum serviço
mas foi feita mesmo é pra comprometê-lo.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
O silêncio das balas
Tem gente sem coragem demais
não brinca com palavras
tem gente corajosa demais
brinca com armas!
eu cá já prefiro me armar de verbos
ora intransitivos
ora transitando no meio dos absurdos
das mortes banalizadas
numa maré* alta de poucas possibilidades
tem seres tão incapazes de mediar um terror
com palavra
que insistem na bala!
E ao insistir só com projéteis
não projetam nenhuma possibilidade
somente mesmo a bala!
A bala que explode
a bala que mata
a bala que sangra!
Ao invés de se armar de termos, terminando a guerra
conjunções adversativas caracterizando outras formas
preferem o gozo da morte
uma morte marcada
uma cor de pele repetida!
Assim, essa gente não acredita que tem outra vida
que existe outra sina
outro carma
novas medidas
Eu, fico ainda com a palavra!
Eu fico ainda com a ferida
mas não espere de mim só a paz desarmada!
eu não sou só dessa guerra desmedida
mas também não fico para sempre silenciada!
* para os corajosos moradores da Favela da Maré armados de palavras!
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
Um poema para João
Essa palavras são para João
menino preso
pobre
morto
ou não sei em que situação!
Esse lamento-denúncia
é por toda privação
Penas
medidas socioeducativas
mentiras de ressocialização
Esse choro, mas repleto de esperança
é para adolescentes
meninos
meninas
bandidos, bandidas, nós...
quase todos nas mesmas encruzilhadas da mistificada exclusão
Esse parecer poético
não se acaba em relatórios
em estudos de caso
ou qualquer possível revisão!
Essa vida jogada no esgoto
essa ignorância
essa conquista da libertação
Só pode nos fazer gritar
nos fazer seguir
nessa luta-revolução!
menino preso
pobre
morto
ou não sei em que situação!
Esse lamento-denúncia
é por toda privação
Penas
medidas socioeducativas
mentiras de ressocialização
Esse choro, mas repleto de esperança
é para adolescentes
meninos
meninas
bandidos, bandidas, nós...
quase todos nas mesmas encruzilhadas da mistificada exclusão
Esse parecer poético
não se acaba em relatórios
em estudos de caso
ou qualquer possível revisão!
Essa vida jogada no esgoto
essa ignorância
essa conquista da libertação
Só pode nos fazer gritar
nos fazer seguir
nessa luta-revolução!
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Corpo-máquina
Se antes apertavas parafusos
hoje
controle de comandos virtuais.
Se foi um ideal difuso
agora
poderes bio naturais
Se fostes homens-máquinas
sois
máquinas-industriais
Se é por uma força bruta
pode
explorações descomunais.
Se te lanças a enfrentar abusos
sois
crimes, somente marginais.
Esse jogo de mortes marcadas
essa não-vida
esses túmulos
ancestrais.
Não te deixas
aniquilar nesse obscuro
desse controle
desses liberais!
hoje
controle de comandos virtuais.
Se foi um ideal difuso
agora
poderes bio naturais
Se fostes homens-máquinas
sois
máquinas-industriais
Se é por uma força bruta
pode
explorações descomunais.
Se te lanças a enfrentar abusos
sois
crimes, somente marginais.
Esse jogo de mortes marcadas
essa não-vida
esses túmulos
ancestrais.
Não te deixas
aniquilar nesse obscuro
desse controle
desses liberais!
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