quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Sintaxe versada

De punho erguido
ou mão levantada
não me peça um poema
ou uma sintaxe versada

Quero a pluma
quero a pena
a boca escalavrada

Esse nome me veio
por puro deboche
essa sintaxe, sem verso
sem ninguém que a prove(aprove)

Uma semântica sem gosto
uma filologia sem ânimo
Eu quero é o gozo
A faca, o tiro, o sangue
a lâmina-verbo
cortando o rosto revolucionário





quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Meninos e meninas*


Estão dizimando meninos
ali no Pompéia ela me contou
agora no Caju ele me mostrou

Estão trucidando os meninos
jovens
pele e cor maioria preta
a vida escorrendo pela sarjeta
e nada que se possa declarar

Estão extinguindo os mais novos
não deixando seguir os povos
não há nada a esperar

Foram acertar as contas na quebrada
em nome do falecido delegado
mas a notícia que contam, o recado
a mídia não deixa passar

Sabe aquele arrastão?
Não foi gratuito
Sabe aquela moça branca da praia?
Aquele seu absurdo discurso, não é mito!
e não seremos ingênuos de paz sem vigor ficar

Estão apedrejando meninas
desfazendo suas infâncias
a adolescente ontem no teatro me ensinou
não tem nada normal
o que tem é violência e intolerância sexual
se o seu desejo é outro te desço ou enfio o pau

Estão tentando silenciar esses sonhos
amedrontar para sempre os nossos ganhos
mas palavra aqui não vai faltar

O medo que aquece a ignorância
e que faz virar ódio
nós detectamos
e viramos outros modos
porque só de morrer e ser silenciado nós não vamos mais deixar!







* este é para o Juan, menino vivo que conheci ontem vendendo bala no ônibus, 15 anos, corpo franzino, mora em Ibirité e trabalha desde muito menino, está estudando e guarda um sorriso.






segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Revira e volta na cidade


Tem cultura na cidade
tem patrão
tem trabalhador

homem rico na cidade
tem peão, tem sova e dor
ainda tem pranto na cidade
tem pancada
soco e não tem flor

tem mentira na cidade
tem prefeito e outros que barganham
até o seu suor

tem polícia na cidade
pra quem ela vem tem cep, sinal e cor

tem dinheiro na cidade
dividido de mal a pior

tem política na cidade
claro, esta se faz com palavras que sabem de cor

tem cusparada na cidade
na cara de todo mundo
que a quer por si(pra ser) só

tem a graça da cidade
inaugurada em obras
em trovas
sem sol nem dó

a cidade é uma farsa
deixa livre o colarinho
não deixa soar cavaquinho
não explica
só existe para o maior





















quinta-feira, 11 de junho de 2015

das deferências

Se for pra ser igual
pra quê a chance de ser diferente?
é igual na diferença

e desigual na indiferença

se for pra repetir sem renovar
pra quê a invenção
se só gera desavença?

se for pra oportunizar pra poucos
pra quê existe pra todos?

a ganância e a falência
a sobreposição e a incompetência

a involução e nada de sapiência

sagacidade é caminhada dura

e não há possibilidade
na simples interferência



sexta-feira, 3 de abril de 2015

Por esses condenados que morrem, viverão*


Essa penas de morte nunca passadas, não passarão
Essa vidas riscadas do mapa
e traçadas nos gráficos
em notícias falsas
não serão em vão

são meninos
sempre da mesma cor
sempre do mesmo jeito
sempre da mesma morte.
Vivos,
pelo menos em nossa memória serão.

Ali na calada da noite
ou à luz do dia
pelo Estado detonados, pela sua dura mão

Mortos, torturados, dissecados pelo poder império
muito mais que entre si, entre os irmãos

Os mortos pelo Direito
Democrático, de respeito
este mundo ensurdecerão

Não tem como calar essas vozes
elas ecoam por mais que as tendam ao não

não há como ter isso como norte
porque é para o sul nossa direção!

Vocês nos matam
mas reproduzimos
para além da morte, o embrião

Nossos versos
cadenciam
num além vida
pra sempre entre nós é vida o que verão!
























* em alusão ao livro Abusado, o dono do Morro dona Marta, onde Caco Barcellos na nota do autor escreve: " Durante os quatro anos de produção do livro, muitos deles foram presos, torturados, mortos sempre de forma brutal. A experiência reforçou meu repúdio à cultura da punição perversa, contra quem já nasceu condenado a todas as formas de injustiça





domingo, 22 de março de 2015

Aquelas duas, três mulheres*


                                                      
                   Ela quase não podia acreditar, mas era verdade. Ali estavam elas, muitas elas, muitas mulheres, e esse gostar de mulheres que não lhe cabia e lhe fazia às vezes explodir também lhe causava repulsas às vezes. O sensor do coração associado ao da cabeça lhe fazia sentir a garganta como se amarrada ou engolindo uma bola de futebol. As pernas não respeitavam seus comandos e os olhos pareciam tão esbugalhados como uma criança assistindo à aterrissagem de uma nave espacial em seu planeta.
                Vinda de uma cidade interiorana ela não poderia imaginar-se tão amante, tão amada e, entretanto tão excluída de relações tão importantes para os seres humanos, embora os estudos universitários a fizessem refletir que, se era mesmo necessário cumprir os rituais da tradição, família e propriedade privada ... Sonhava uma vida livre e sentindo os prazeres não aceitos, e muitas vezes, repelidos pela ordem social. Apesar disso tudo saber não se privava de vivê-los. Chegou a desejar a morte de um homem homofóbico num dia saindo de uma festa e estando feliz com suas companheiras, foram todas vítimas de uma cena de preconceito imperdoável! Mas isso tudo não lhe retirava a vontade de seguir em frente, afora todas essas situações grotescas no convívio social, era somente essa dor da perda, ou talvez de um contato cortado que, algumas vezes a colocava em dissonância com as alegrias vividas nos amores, amizades e aprendizados no convívio social.
                Então, aquela cena, num lugar completamente adverso a colocava diante de seu passado, diante de suas escolhas, diante daquilo pelo qual desejava viver. Encontrar aquelas duas mulheres, tão suas, tão afastadas, mas tão sendo suas de coração, de genética, de realidade a colocava em meio à um turbilhão de cenas que nunca mais esqueceria e para a qual não poderia mais negar e além disso era preciso divulgar!
              Era a cena da libertação, era a cena de certa aceitação, era a vivência real, mas muito representativa de um imaginário que não podia acreditar. Amava muito aquelas mulheres talvez não tanto quanto e, certamente, de modo bem diferente do qual amava as outras todas mulheres com que experimentou a vida; todavia essa experiência do primeiro amor, dos amores carnais sem sexo, do prazeres do leite materno, do gozo da vivência no útero, das falcatruas sociais de pessoas gêmeas lhe passavam todas em apenas um segundo na cabeça, pois não era fácil retomar em público e perdoar socialmente e fraternalmente o preconceito!
             Mas elas estavam ali, eram duas mulheres, uma idêntica a si, embora se constituindo inteiramente diferente permitindo à ambas serem duas e não somente uma, embora a placenta tenha sido dividida, embora as vontades compartilhadas. Estavam ali as duas mulheres da sua vida, pedindo seu olhar, chorando junto com ela. Revivendo esse amor ora abandonado, ora perdido, mas muito ali recuperado, tornando a vida mais possível e o amor sem a propriedade, sem as agressões sociais, possibilitado.




                                                           


* para minha amiga Carina e seus amores




quinta-feira, 12 de março de 2015

Palavra não alivia


eu fico de cara com essa gente
que usa palavra
pra aliviar tensões
inibir os sentidos
calar os gemidos
ou submeter soluções

palavra foi feita pra agredir
somos cruéis
por natureza linguística!

palavra não tem meio-termo
não tem outro jeito
dita ou escrita
resposta pede aqui ou à ermo!

eu fico pensando
pra quê rimar com palavras?
elas não resolvem nada
elas não te escutam
são indiferentes
são escusas

As palavras escolhem um terreno fértil
elas querem te descontrolar
desconfortar
ou achar que te fazem exitoso
pura mentira!
o verbo, esse aí, só te torna ainda mais ambicioso

Palavra boa mesmo
é a escolhida a dedo
mas também aquela dita sem medo
recuperada
tornada pedra
ou dilapidada

palavra tem ou não compromisso
presta muitas vezes algum serviço
mas foi feita mesmo é pra comprometê-lo.