quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Bola

 


             Tinha apenas quatro anos quando viu, pela primeira vez, uma bola. Um brinquedo era o que achava que era, mas também parecia algo mágico, algum elemento de um mundo que ainda não conhecia, porque aquele objeto não era só seu, era do pai, dos amigos do pai, às vezes podia tocar, às vezes podia brincar, mas sob o olhar impositivo, contrariado ou vigilante do pai, e do curioso e preocupado da mãe. Afinal, aquilo era redondo, batia nas coisas, quebrava lâmpadas e vasos relíquias da família.

                  Na televisão via homens adultos correndo atrás do brinquedo, e, no lugar onde ficavam, um pasto, parecia um pasto como via na fazenda do avô, uma grama, aquele brinquedo rolava, eles corriam atrás dele, todos competiam para ter aquele objeto entre os pés, apenas um podia tocar com a mão, não entendia o porquê daquilo. E, além desses homens naquele pasto verde e quadrado; em volta havia milhares de outros homens, a câmera da tv mostrava, e eles gritavam muito, e falavam muitas palavras que não conseguia entender, e algumas que entendia, mas nunca poderia repetir, pois sua mãe iria se escandalizar.

                  Na escola também tinha o brinquedo, mas somente usado por meninos, sob a observação dos mesmos:” Menino brinca de bola, menina de boneca”. E nem se encaixar ainda podia, nem sabia que brinquedos mais gostava, nem o motivo desses serem divididos por sexo/gênero, palavras que só aprendeu depois dos 14 anos, quando novas revelações lhe apareceram…

                 Um dia, na rua, há uma certa distância da sua casa, viu um grupo de meninos com aquele brinquedo, meninos que nunca havia encontrado antes, e que não lhe conheciam também. Afinal, havia brincado apenas com primos(as), filhos(as) dos amigos de seus pais e na escola…sempre brincadeiras que, mesmo não sabendo a identificação correta, ia pelo que as outras crianças lhe indicavam ser a mais indicada: “ boneca, comidinha, dona de casa, mamãe…”. Achava bonita a beleza da mãe, gostava de desenhos animados com princesas, achava até que poderia gostar dos dois lados da vida, mas não sabia, ainda, que a vida poderia ter mais de dois lados.

               Bom, mas ao ver aqueles meninos desconhecidos, e já tendo idade, provavelmente, para sair na rua sem companhia, ficou por ali; e faltou, em um determinado momento, seja por alguém ter se machucado, ou a mãe ter dado um grito na janela intimando a ir embora, e lhe chamaram para compor um dos times.

                Tinha dez anos naquele dia do futebol na rua, estava de short, camisa grande, de mangas, e, uma coisa bem importante, tinha cortado os cabelos bem curtos, mesmo contando com o desconforto do pai, e da condescendência da mãe, que dizia: “ Deixa, Cláudio! Isso é fase!”, e o pai: “ Não sei não, Ana!”. Mas era isso, tinha o corpo e a aparência perfeita para um substituto que aquele grupo precisava naquela pequena partida de futebol de rua. Jogou, e jogou bem! Fez dribles, cortou vários deles, deixou muitos para trás e fez dois gols. Deixando o grupo de meninos perguntando-se:” De onde saiu esse menino?”.

                 Voltou feliz para casa, um suor na roupa, sapatos sujos, e a mãe assustada: “ O que aconteceu com você?”. Respondeu: “ Estava brincando, mãe!”

                 Aquela situação se repetiu por alguns dias, dois meses se passaram,  surgiu um campeonato de futebol na região. Poderiam se inscrever como time de rua, encontraram um pai de um dos meninos para ser o técnico que faria a inscrição pelo time. Pediram a certidão de nascimento de todos os meninos. No que essa notícia apareceu, não via outra saída senão dizer a verdade, dizer quem era…levou a certidão, e quando o técnico olhou o nome no papel, ficou atordoado em sua leitura: homem-sábio sobre futebol, o nome daquele jogador que aparecera casualmente para salvar aquele time num dia aleatório era: “ Melissa dos Anjos”. Sob o olhar boquiaberto de todos os meninos do time, disse:” Sim, sou menina!

                     Bom, até aquele momento era menina, mas só o tempo poderia dizer quem realmente seria…

                  Não foi possível ser cadastrada na inscrição do campeonato de futebol. Embora fosse quase a melhor do time entre os meninos, a inscrição só aceitava meninos, sexo masculino, e ela nem mesmo entendia o que aquilo significava, e pensava: “ De onde tiraram essa divisão entre meninos e meninas? Mulheres e homens?” Mal sabia ela que, em algum tempo, para além da divisão sexo, chegaria a divisão gênero, e ela mesma nem sabe se para ela, era o pronome “ela” que deveria ser indicado. Entretanto, uma coisa tinha certeza: gostava de futebol, só queria jogar! E mais tarde, quando começou a gostar de música e viu o filme da Elis, com Andrea Horta, pensou: “ Só quero jogar, como Elis só queria cantar!”

                Continuou jogando futebol como dava, participou de time de meninos e meninas, fora de campeonatos, claro. E, com 14 anos, a surpresa! Estava no vestiário da escola, cabelos curtos, seguiu enquanto pôde de cabelos curtos, pernas começando a nascer pelos, e, sem estar preparada, a roupa se sujou toda de sangue em um lugar que nunca havia acontecido, sem se ferir, sem cair, sem nada! A mãe já a tinha advertido disso, mas sem muitos detalhes. E ela não tinha outra roupa, assim como não tinha como estancar aquilo sem que sua roupa continuasse a sujar. A sorte é que uma das colegas, muito gentilmente, notou sua angústia,e emprestou tanto um short, quanto um absorvente. Explicou mais ou menos como se organizar para o próximo mês, e a decepção não foi tão grande como ela esperava.

                   Naqueles dias não deu conta de jogar bola na escola, tamanha dor que sentia na barriga e nas pernas. Pensou:” Será que será isso todo o mês do resto da minha vida?”

                   Na escola era ignorada pelos meninos nas brincadeiras, e quase nunca aceita pelas meninas por ostentar traços masculinos. Era na aula de literatura que podia escrever e compreender mais suas questões, pois ali havia esse afundamento na subjetividade, e na aula de educação física, por ter um professor com pensamentos avançados, jogava futebol…

                   Mas libertação mesmo, encontrou quando, aos 17 anos, ao entrar no último ano do Ensino Médio, a escola recebeu uma nova aluna, a Larissa, que, mesmo aparentando uns pelinhos no queixo, mesmo com pernas torneadas e endurecidas, usava batom, salto alto, e tinha uma voz penetrante…

                  Larissa já chegou na escola apresentando-se com esse nome, mas a certidão de nascimento trazia um nome masculino do qual ela não tinha nenhum interesse em falar, e do qual a escola já havia sido avisada pelos pais de Larissa que já estavam encaminhando a mudança do nome no papel, coisa que a jovem já havia feito na realidade. Melissa teve contato imediato com essa colega, e, dia a dia, perguntava sobre essas mudanças, quais possibilidades, e como ela conseguiu convencer o pai e mãe a trocar seu nome e aceitar que ela se vestisse assim.

                 Foram meses de convivência até Melissa criar coragem de chegar em casa com uma pintura no rosto que simulava uma barba…era só o começo de uma longa jornada pelo mundo de outro gênero…

 


                       

  Laila Vieira de Oliveira

 



terça-feira, 19 de novembro de 2024

Estamos aqui e sorrindo!

Eu conheço Walter Salles pessoalmente! Sim, eu vou dar essa carteirada nesse início de crônica-conto sobre o filme dele: " Ainda estou aqui". O filme é um recado, uma carta, um manifesto! Uma oportunidade de memória, de verdade, de reencontro...

Eu falo por volta de uma hora e meia depois que vi o filme. E a decisão de falar assim no calor do momento é proposital, racional e emocional!

O que é uma mãe com cinco filhos ainda por criar, perdendo o marido para um terror instalado no seu país de origem? O que faz uma mãe diante de tanta calamidade social, política e pessoal? Eunice escolhe sorrir, agir, estudar e não retroceder. 

Sob pena de dar sinais do que é o filme e retirar o sabor do inusitado, sinto-me confortável, se é que ver um filme sobre ditadura civil-militar pode dar algum conforto; mas me sinto à vontade para isso, para dizer que já me sentei num mesmo auditório que Walter Salles, na Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST, e o vi falar sobre outro filme dele, também imprescindível, o " Linha de Passe"! 

Essa caminhada que tão fundamentais atores, atrizes, tão potente diretor, e um roteiro que só a inspiração de Marcelo Rubens Paiva poderia proporcionar é uma caminhada avassaladora de descobertas, de renovação do nosso desejo de luta e, principalmente, para mim, que sou nada diante desse universo que é essa militância pela memória, de respeito pela história de quem veio antes!

Estamos aqui, sorrindo, resistindo, tendo humor como o Rubens Paiva, revolucionando esse país tão cheio de violência, de ditaduras grandes ou pequenas, de terrorismo de Estado nas periferias. E nós, que seguimos vivos, seguimos brandando, gritando e esperando pelas certidões de óbitos, pelo reconhecimento da barbárie e pela memória viva de todos e todas que partiram por querer um mundo sem tiranos.

Seguimos aqui, Eunice! Com Você, com Marielle, com Cláudia, Amarildo, cada jovem e mãe periférica desse país, cada trabalhador. Insistimos em sorrir como você.

Obrigada!








segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Julieta

Julieta

Um nome e duas rodas
Desde Shakespeare, paixão
Julieta é nome de amor
Loucura, força, missão.

Como pode essa coragem?
Sozinha de bike levando ternura
Levando riso
Doçura

Julieta agora é morte
Dos(as) algozes, fissura
Mas será vingança-palhaça
Renovado o amor-figura.

            Laila Vieira de Oliveira, palhaça Pororoca

terça-feira, 4 de abril de 2023

Vida e morte felina

 Dia desses ouvi um barulho estranho, como um som de gemidos de gatos, de gatos filhotes. Fui tentando entender de onde vinham os sons, e pedi minha tia para verificar, eram gatinhos filhotes escondidos. A mãe gata escolheu uma moita na base de um coqueiro nascido no nosso quintal(dizem que quando estão para parir, escolhem um lugar seguro para tal). Eram três gatinhos. Até aí tudo bem.

Só que passado um dia, foi-se embora a mãe com dois filhotes, e deixou um no choro e desespero lá sozinho, escondido entre os matinhos. 

O gatinho chorou dia e noite. Eu não dormi nada naquela noite, e no dia seguinte minha mãe tentou descobrir entre a vizinhança de quem era o bicho, caçoaram, falaram pra ela cuidar, pensei, repensei, falei pra ela pra tentarmos dar leite. Ela disse que era tão pequeno que nem ia dar conta de tomar leite, que teria que ser com a seringa. Ela, aposentada como auxiliar de enfermagem, tinha luva de porcedimento e seringa. Pois sim, foi lá e colocou leite na seringa, pegou o gato com a mão e o bichano nada de abrir os olhos, nada de tomar o leite.

O bicho estava decidido a só chorar...

E pensamos que talvez morreria ali.

Preocupadas procuramos informações, e descobrimos que a mãe o deixara ali porque provavelmente era doente.

Tínhamos que sair de casa, e íamos dormir fora. Só que durante o dia a mãe gata retornou no quintal, e eu disse:" Mãe! Ela defe que veio buscar o filhotinho". Deixamos o cenário favorável para que ela pudesse ir lá pegar o filhote, mas nada dela ir lá. Saímos de casa, deixamos recado para minha tia observar. E nada dela pegar o filhote até na noite desse dia.

Chegamos no dia seguinte, a primeira ação da minha mãe foi olhar entre o matinho, e deu-se a decoberta:" A gata levou mesmo o filhote!", disse a minha mãe. E ela acrescentou:" A gente fica emocionada com a natureza, né?"

Tal é a sabedoria da natureza que ficamos pensando em nossa ansiedade e na tranquilidade da mãe gata...















terça-feira, 2 de agosto de 2022

Culinária poética



Tem gente que faz arte com sons
Outras com o corpo
Por acobracias uns.
Por junção de rimas outros.
Tem quem consiga artificar sabores
Se de plantas comestíveis, aromas.
Se de temperos, picantes. 
Eu arrisco-me com palavras
Cozinho-as na semântica
Frito-as metaforicamente.
Pra come-las em poesia, prosa ou literatura corrida.




sábado, 2 de julho de 2022

Amizade Animalesca

 Um amigo meu, amigo desses que, você briga de verdade, assume as suas merdas, ouve as merdas dele, amigo de fé mesmo. Bem, esse meu amigo saiu de Belo Horizonte. Saiu para um trabalho numa cidade de São Paulo; não vou citar a cidade, nem mesmo o nome do amigo, embora ele, em seu coração generoso, me tenha permitido cronicizar sua história. Então, eu nem sei se o gênero crônica admite essa verbalização aí, mas se permitiram a Guimarães Rosa inventar palavras, que inventemos também nós! Mas vamos ao meu amigo, ele foi para esta cidade, e pela primeira vez, por volta de seus quase 30 anos, morando sozinho, deparou -se com todos os afazeres domésticos, coisas que ele já sabia fazer desde cedo( que maravilha de mãe pra ensinar isso pra um menino!), e também com todas as intempéries que uma habitação solitária traz.

Bom, eu desperto numa madrugada, como é de praxe em minha vida de quase sempre insone, e me deparo com uma mensagem no whatsapp, e uma foto de um gambá, mas não era um simples gambá. Um desses das histórias de familias do interior, ou dessas fotos de livros de geografia, ciências da escola. Era um gambá digno de um filme de terror! Soltei -lhe por mensagem um belo e ressonante:" Puta que pariu!" E ele me responde que o bendito animalzinho encarou-lhe olho no olho. Eu, em meio ao meu pânico, e também minha curiosidade, disse -lhe:" Eu entregaria as chaves da casa! Sinceramente, esse gambá é proprietário do imóvel!" Ele sorriu com meu medo, e eu, divagando entre o medo, mas também a muito interesse de porquê surgiu, no meio de uma cidade grande, um gambá com personalidade. Permiti-me deixar o pensamento saltar em viagens inimagináveis.

Afinal, os animais são mesmo os donos em primeira instância do mundo, nós lhes roubamos essa propriedade, e eles, genuinamente, nos causam esses sustos às vezes.




domingo, 13 de março de 2022

As bobagens de Rafael

                  Dia desses no bairro, à noite, caminhando para resolver algumas coisas para um dos meus irmãos, vi uma lanchonete, um trailler desses que fazem sanduíches e pensei:" Na volta vou comer um sanduíche ali!". Não muito apegada a essas comidas de rua(sem crise, nem preconceito. Pai e mãe não eram de nos levar pra comer essas coisas, lá em casa sempre era rango mesmo: arroz, feijão...e os festejos igrejeiros, na maioria eram com: vaca atolada, caldos. Ou seja, comida de casa...rs), às vezes me pega a vontade. Fiz a tarefa, voltei caminhando, e parei no tal trailler. Pedi um tal "X egg burguer" e fiquei sentada, observando o movimento ali, os entregadores e clientes, e às vezes o celular. 

                  Depois de alguns minutos observo duas famílias chegando. Uma com um menino por volta de 9 anos, adultos, avó. Outra, já na mesa ao meu lado, com: pai, mãe e duas crianças. Uma menina de uns 4 anos e Rafael!( vou chamá-lo assim para claro, poupar seu nome verdadeiro, mas não perder a essência da rima!). Rafael creio que tem por volta de dois anos e meio. Conhece bem a maioria das palavras, mas, naquele momento insistia em dizer:" Bobo!". Parecia extremamente irritado, às vezes chorava um pouco, era agressivo. A mãe chamava sua atenção, ora se levantava da sua cadeira, abaixava-se na altura do filho e dizia: "Vou te levar pra casa e deixar o papai e sua irmã aqui!". Eu observava, sorria para ele, e seguiam as angústias e a palavra: "Bobo!" balbuciada por ele sempre. Em um momento, olhei pra ele, sorri e disse:" Eu acho Rafael, Rafael o seu nome, né? Ele acenava que sim com a cabeça e os pais observavam. "Então, eu acho que você não sabe bem o que é bobo, mas está testando o sentido da palavra, né?". Quase pensando:" Em quê essa palavra ofende tanto?"

                   Os pais me olhavam com certa curiosidade, a mãe parecia envergonhada, o pai, parecia um professor/pesquisador , desses que também observava como se visse uma hipótese.  Passou um pouco, Rafael acalmou, meu sanduíche chegou, o deles ainda não, e comecei a comer. Rafael me olhou, e eu:" E de quê será o seu sanduíche?" Ele me olha, não diz nada, mas já está calmo. O pai olha esperando a resposta, a mãe também, e a irmã curiosa também pela cena. Eu sigo:" No seu sanduíche vai ter ovo?" Ele: "Não!" Eu: "E queijo?" Ele:" Não!", mas já sorrindo como se estivesse numa brincadeira. Eu:" E carne?" Ele: "Não!" Eu: "Ah você é vegetariano!!!!" Ele: "Não!"( eu observo tantos "nãos" e penso no quanto dizemos isso às crianças!) A irmã:" Uai, então não vai ter nada, só pão!" Todos dão gargalhadas e Rafael segue observando a conversa. A irmã diz que o dela terá batata, como se também quisesse ser observada. Eu:" Muito bom batata, né?" Ela: Sim, eu gosto de batata porque é crocante!". Eu: Ah sim! Dá uma tristeza quando a batata não tá crocante, né?". Pai e mãe riem.

                 Eu termino meu sanduíche e saio da mesa, limpo as coisas, pago e dou tchau pra eles. Rafael diz: "Tchau!" Como se tivesse ganhado uma amiga. Eu retribuo...

                 Volto pra casa com minhas tristezas por perda dura nos últimos dias, com a mesma vontade  de esbravejar, espernear, me revoltar que Rafael! E sabendo que, sendo adulta, praticamente perdi esse direito. Entretanto, feliz por ter ofertado graça*, afeto e calmaria para aquela família. Sabendo que falta muito para nossa sociedade aprender a acolher crianças(mesas, cadeiras, menos "nãos"...), e que é preciso paciência e sabedoria para entender que são sujeitos de sua história. Rafael sorriu e se despediu. Eu, de cá com minhas pesquisas da infância, com a curiosidade sobre isso, me acalmei...




* A Pororoca esteve lá sem máscara e sem figurino...<3 rs