Tinha apenas quatro anos quando viu, pela primeira vez, uma bola. Um brinquedo era o que achava que era, mas também parecia algo mágico, algum elemento de um mundo que ainda não conhecia, porque aquele objeto não era só seu, era do pai, dos amigos do pai, às vezes podia tocar, às vezes podia brincar, mas sob o olhar impositivo, contrariado ou vigilante do pai, e do curioso e preocupado da mãe. Afinal, aquilo era redondo, batia nas coisas, quebrava lâmpadas e vasos relíquias da família.
Na televisão via homens adultos correndo atrás do brinquedo, e, no lugar onde ficavam, um pasto, parecia um pasto como via na fazenda do avô, uma grama, aquele brinquedo rolava, eles corriam atrás dele, todos competiam para ter aquele objeto entre os pés, apenas um podia tocar com a mão, não entendia o porquê daquilo. E, além desses homens naquele pasto verde e quadrado; em volta havia milhares de outros homens, a câmera da tv mostrava, e eles gritavam muito, e falavam muitas palavras que não conseguia entender, e algumas que entendia, mas nunca poderia repetir, pois sua mãe iria se escandalizar.
Na escola também tinha o brinquedo, mas somente usado por meninos, sob a observação dos mesmos:” Menino brinca de bola, menina de boneca”. E nem se encaixar ainda podia, nem sabia que brinquedos mais gostava, nem o motivo desses serem divididos por sexo/gênero, palavras que só aprendeu depois dos 14 anos, quando novas revelações lhe apareceram…
Um dia, na rua, há uma certa distância da sua casa, viu um grupo de meninos com aquele brinquedo, meninos que nunca havia encontrado antes, e que não lhe conheciam também. Afinal, havia brincado apenas com primos(as), filhos(as) dos amigos de seus pais e na escola…sempre brincadeiras que, mesmo não sabendo a identificação correta, ia pelo que as outras crianças lhe indicavam ser a mais indicada: “ boneca, comidinha, dona de casa, mamãe…”. Achava bonita a beleza da mãe, gostava de desenhos animados com princesas, achava até que poderia gostar dos dois lados da vida, mas não sabia, ainda, que a vida poderia ter mais de dois lados.
Bom, mas ao ver aqueles meninos desconhecidos, e já tendo idade, provavelmente, para sair na rua sem companhia, ficou por ali; e faltou, em um determinado momento, seja por alguém ter se machucado, ou a mãe ter dado um grito na janela intimando a ir embora, e lhe chamaram para compor um dos times.
Tinha dez anos naquele dia do futebol na rua, estava de short, camisa grande, de mangas, e, uma coisa bem importante, tinha cortado os cabelos bem curtos, mesmo contando com o desconforto do pai, e da condescendência da mãe, que dizia: “ Deixa, Cláudio! Isso é fase!”, e o pai: “ Não sei não, Ana!”. Mas era isso, tinha o corpo e a aparência perfeita para um substituto que aquele grupo precisava naquela pequena partida de futebol de rua. Jogou, e jogou bem! Fez dribles, cortou vários deles, deixou muitos para trás e fez dois gols. Deixando o grupo de meninos perguntando-se:” De onde saiu esse menino?”.
Voltou feliz para casa, um suor na roupa, sapatos sujos, e a mãe assustada: “ O que aconteceu com você?”. Respondeu: “ Estava brincando, mãe!”
Aquela situação se repetiu por alguns dias, dois meses se passaram, surgiu um campeonato de futebol na região. Poderiam se inscrever como time de rua, encontraram um pai de um dos meninos para ser o técnico que faria a inscrição pelo time. Pediram a certidão de nascimento de todos os meninos. No que essa notícia apareceu, não via outra saída senão dizer a verdade, dizer quem era…levou a certidão, e quando o técnico olhou o nome no papel, ficou atordoado em sua leitura: homem-sábio sobre futebol, o nome daquele jogador que aparecera casualmente para salvar aquele time num dia aleatório era: “ Melissa dos Anjos”. Sob o olhar boquiaberto de todos os meninos do time, disse:” Sim, sou menina!
Bom, até aquele momento era menina, mas só o tempo poderia dizer quem realmente seria…
Não foi possível ser cadastrada na inscrição do campeonato de futebol. Embora fosse quase a melhor do time entre os meninos, a inscrição só aceitava meninos, sexo masculino, e ela nem mesmo entendia o que aquilo significava, e pensava: “ De onde tiraram essa divisão entre meninos e meninas? Mulheres e homens?” Mal sabia ela que, em algum tempo, para além da divisão sexo, chegaria a divisão gênero, e ela mesma nem sabe se para ela, era o pronome “ela” que deveria ser indicado. Entretanto, uma coisa tinha certeza: gostava de futebol, só queria jogar! E mais tarde, quando começou a gostar de música e viu o filme da Elis, com Andrea Horta, pensou: “ Só quero jogar, como Elis só queria cantar!”
Continuou jogando futebol como dava, participou de time de meninos e meninas, fora de campeonatos, claro. E, com 14 anos, a surpresa! Estava no vestiário da escola, cabelos curtos, seguiu enquanto pôde de cabelos curtos, pernas começando a nascer pelos, e, sem estar preparada, a roupa se sujou toda de sangue em um lugar que nunca havia acontecido, sem se ferir, sem cair, sem nada! A mãe já a tinha advertido disso, mas sem muitos detalhes. E ela não tinha outra roupa, assim como não tinha como estancar aquilo sem que sua roupa continuasse a sujar. A sorte é que uma das colegas, muito gentilmente, notou sua angústia,e emprestou tanto um short, quanto um absorvente. Explicou mais ou menos como se organizar para o próximo mês, e a decepção não foi tão grande como ela esperava.
Naqueles dias não deu conta de jogar bola na escola, tamanha dor que sentia na barriga e nas pernas. Pensou:” Será que será isso todo o mês do resto da minha vida?”
Na escola era ignorada pelos meninos nas brincadeiras, e quase nunca aceita pelas meninas por ostentar traços masculinos. Era na aula de literatura que podia escrever e compreender mais suas questões, pois ali havia esse afundamento na subjetividade, e na aula de educação física, por ter um professor com pensamentos avançados, jogava futebol…
Mas libertação mesmo, encontrou quando, aos 17 anos, ao entrar no último ano do Ensino Médio, a escola recebeu uma nova aluna, a Larissa, que, mesmo aparentando uns pelinhos no queixo, mesmo com pernas torneadas e endurecidas, usava batom, salto alto, e tinha uma voz penetrante…
Larissa já chegou na escola apresentando-se com esse nome, mas a certidão de nascimento trazia um nome masculino do qual ela não tinha nenhum interesse em falar, e do qual a escola já havia sido avisada pelos pais de Larissa que já estavam encaminhando a mudança do nome no papel, coisa que a jovem já havia feito na realidade. Melissa teve contato imediato com essa colega, e, dia a dia, perguntava sobre essas mudanças, quais possibilidades, e como ela conseguiu convencer o pai e mãe a trocar seu nome e aceitar que ela se vestisse assim.
Foram meses de convivência até Melissa criar coragem de chegar em casa com uma pintura no rosto que simulava uma barba…era só o começo de uma longa jornada pelo mundo de outro gênero…
Laila Vieira de Oliveira