terça-feira, 22 de agosto de 2017

Para o crivo do poeta


À passagem da palavra
submeto escrita torta
Não há dor mais sofrida
que essa letra morta

À prescrição da gramática
A subversão prosaica
Não existe poesia-regra
Nem sociedade justa-laica

Sou apenas caçador de palavras
Tentativa verbo-ourives
Minha boca não mais fala
Escrevo apenas cicatrizes

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Frio e despejo*

Açoite de pimenta e vento
lançam à rua os lanceiros
Pancada na cara: Aí não podes morar!
Surge o poder violento

Sem casa
sem poder morar

os desprivilegiados
perdem o momento

pobre não tem lar
nem pode querer ter nem ser
nem vida, nem documento

o poder lança seu lance de bilhar
prédio é de gente de tento
tino pra exploração
e nosso pesar não é só descontentamento

Lançados os negros e negras do lugar de morar
tão sempre em movimento!



                                              *sobre o despejo da Ocupação Lanceiros Negros no Rio Grande do Sul




                                   


foto postada no facebook de: Elenara Vitoria Cariboni Iabel

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Palavra


Quando não te sinto mais
é dor
quando estás presente demais
torpor

Quando prazer demais
suor
quando expressões desfaz
sabor

Quando não sabe o que mais
amor

Quando o verbo falta
horror
quando a reposta viola e trai
terror

Quando a expressão singela
vapor

Quando não quero mais
é que vou

Quando é política
eu estou

Se for filosofia
escapou

Se for pra reverberar
não sou

mas pra poetizar
conjugou

o problema é tentar explicar
nem tentou

porque palavras verbalizadas
não sou
















quarta-feira, 29 de março de 2017

Terceira vez

Erra uma, duas
Três vezes!
mais eleitorado

Perde direitos
sai, trabalha, bate cartão
explorado

Faz greve,mobiliza
é a enésima vez
está revoltado

Proletário presidente
sindicalizado
sempre e outra vez
mas deu foi privado

não só disso se vive
se repete a falha
um, dias e outra vez
midiatizado

Repete, aperta
força a forca do que se vê
pelo trabalho estrangulado


Produz
não liberta
nem patrão mais se vê
terceirizado!






quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Para mulheres-Marisa


Viste desde longe 
suave, singela
mas com força
realiza
Clara mulher
muito o claro o que quer
Sois vós Marisa

De tantas mulheres
um sorriso
um olhar
que esse mal exorciza

sabes de onde
para onde caminhas
por esse mar político
que habitas

esperança, mulheres
teu rosto suaviza
mesmo em meio à leviandades
tropeços
erros históricos
não se martiriza

Foi por doença
perda e pranto
essa nuvem de artimanhas
barganhas
precisas

A saída se faz 
quando acreditamos em mais
nossas sinas, coalizas

Margarida Alves
Anita
Elisas
Mulheres com cantos e contos
Coralina, Cecílias

Por vozes
coragem
verdades futuras
teu nome sinaliza










sábado, 14 de janeiro de 2017

Desses tempos

Haja tempo
transgressão
Boleto bancário
Altos salários
bordão

Falta tempo
De ser
de entender
de refazer
contradição

Angústia-tempo
de amanhecer
reescrever
contradizer
sintetizar
um refrão

Sobra tempo
velhacaria
supermercado
dose dupla, mesmo homeopática
sem invenção

Outro tempo
submergir
enfeitiçar
mudar histórias
social
perder
intenção

Exagerar no tempo
muitos goles
embriaguez
insubordinar-se
R-evolução.











quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A poética do ato

Poesia não é só alegria
poesia é coragem
navalha na carne
o real mostrado em verso

Poesia é enfrentar o poder
dizer entrelinhas
que se votam contra o povo
o povo votou
colocou
e se faz tudo ao contrário dos direitos do povo

Mas poesia também é discurso
é enfiar a cara na luta
queimar a mentira em chamas de borracha
é tomar borrachada de agentes do Estado Democrático de Direito
é gás de pimenta que tempera a safadeza dos de cima

Poesia é luta de classes
é destemperar-se
enlouquecer
desnortear o norte dominante
salto e lançar-se no abismo do não-poder
de um poder sem culpa
de um saber diferente
de uma roda de conversa
de conflitos nossos
que nós resolvemos!!!!

Poesia é espirituosa
mas pode ser sangramento de perdas
pode ser superação
pode vislumbrar novos que
a direita estremece
o centro enfraquece
e a esquerda não se coloca!

Poesia é um clamor
mas também é ato
Retira o que conquistamos
recuperaremos no braço!