quinta-feira, 26 de abril de 2018

Em breve será tarde

Quando os olhos se abrirem
Os ouvidos ouvirem
As bocas falarem

Seria só alarde?

Acontece a canalhice
Mas, revestida de zelo
Não se revoltam
É em nome da segurança, que se esfaqueia a liberdade.

A linha de corte 
O limiar do suporte
Inventa-se falsa sobriedade

É penosa a vida de quem do trabalho precisa
Sangra
E morre, ou de sobrevida, vive
A insana luz buscada não chega
Em breve será tarde.












terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Não adianta, trabalho!




Se sua mão tem cheiro de água sanitária
Graxa de sapato
Detergente
Tinta de caneta, giz de quadro escolar
Ou caleja com caneta para quadro evoluído
Óleo diesel, ou outro fluido
Ou o que seja para assepsia, o seu nome é trabalho!

Se acordas num horário 
dia a dia
Se te esperas um local pra assinar
Um relógio, o de ponto
O seu ser é trabalho

Se te debruças sobre uma mesa
Empilhada de livros
Papéis, artigos para escrever, projetos para se a ver
Promissórias
E por esses papéis tens que prestar contas,
Tu também, o que codificas, trabalho

Se para comer você precisa
Superar 22 dias, mesmo em casa, no ônibus lotado
Ou teu próprio carro
Mas se alguém te espera, ou espera que cumpra essa via crucis
Você é trabalho

Se vestes terno, ou saia social
Se o que te espera é o reitor, mesmo sendo professor universitário!
Ou te mandas o juiz que prega moral,
Você só pode ser trabalho


Se está repleta de partituras tua cama
Se passas o dia a talhar letras e sons
Se a fonética te preocupa
Se é sublingual
Microtonal
Se tua canção precisa de aval
Teu nome nunca prescinde do que seja trabalho!

Se as tintas com que sujas tua mão
Se precisas delas e da tela para acessar o pão
Se esperas a resposta da produção
Tua vida é trabalho!

Ativa-se é na linha de produção?
Se saem dali carros, tecnologia
Mas tem fiscal, encarregado, patrão
Ou se você não pode ser mais do que é
Será trabalho

Embora o que domina os meios e as engrenagens
Tenha redes de comunicação
Tenha judiciário, tenha lei, tenha tudo ao dispor
De só te fazer trabalho
Ainda que ele te coloque apenas no lugar da submissão
No lugar da entrega do produto
No lugar da reprodução,
mesmo sendo trabalho,
só junto romperá a barreira
e para a contradição

encontrarão atalho.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Perguntas

O que você faz quando ninguém está te olhando?
Quantas vezes por semana você lava o seu banheiro?
pra você qual é o cúmulo do absurdo?
quais as drogas você já usou?
quais você ainda gostaria de usar?
o que tem debaixo do seu travesseiro?
a vida vale a pena?
você já desejou morrer?
se sim, já chegou às vias de fato? Tipo, já tentou?
Qual a cor da calcinha que você tá usando?
Porque existem quatro tipos de porquês na língua portuguesa?
Pra quê serve o h, se nem é pronunciado?
você sempre abre os olhos quando acorda?
você já teve vontade de pegar uma muda de roupa e sumir no mundo?
Qual a intensidade de um jato de esperma?
Pra quê arrumar a cama se você vai deitar nela de novo?
Qual o motivo da gente ficar tonto diante de um lugar muito alto ou diante do mar?
Quantos litros de água passam em cada segundo do nas cataratas do Iguaçu?
se você pudesse gritar dentro do hospital você gritaria?
por que letra de médico é garrancho?
e por que médico é doutor sem fazer doutorado?
porque a gente nasce sem dente?
como acontece de a gema não misturar no ovo?
se o cavalo pudesse falar, o que ele diria para quem o monta?




sábado, 23 de dezembro de 2017

Pela intransitividade

É preciso (in)trasitividades
além de objetificar os verbos
coisificar os sujeitos
e, abominando regras exploratórias,
fazer novidades


A vida não pode transitar
somente no absurdo do ajuntamento das conjunções
vossas máximas
as exceções
as perversões da letra
não podem ser a primazia

Nós queremos a libertação do nome
a emancipação completa do ser
sendo de fala
ou surdo

A nossa luta cotidiana
na oralidade verdadeira
no limiar da palavra dita
nos conjuga da certeza da vitória

Nossa escrita é feita com sangue
enquanto a vossa é de tinta fresca
Nossa história fica nos cantos dos terreiros
e nosso real não se perfaz de textos e assinaturas

É no dia a dia da vida que traçamos a vida futura
nossos partos são em casa
nosso pé anda no chão

Não lhes pedimos licença para passar
o mundo já é nosso por direito!















quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Condução coercitiva-cotidiana

Quando eles chegam de coturno
chutam a porta
e nem pedem licença
quem se importa?

Quando eles chegam de madrugada
levam meu filho
desaparece o vivo
aparece o corpo
quem se esforça?

Quando a porta já nem chave tem
quando eles nos olham na cara com desdém
quando o helicóptero-cotidiano
barulhento
deixa-nos surdos
deixa-nos mudos
quem acorda?

Quando era chibatada
Quando era tronco
Quando era público o castigo
Quem ignora?

Quando a gente, livre?
trabalhadores violentados
produzindo em série
suando sangue
na linha que despeja carros
quem se arvora?

Quando as mulheres
em casa, nas casas das famílias
família era só a branca com bebês assépticos
enquanto nossos filhos em casa
sem pão e sem educação
quem os nota?

Quando eles nos levam de nossas casas
quando eles nos despejam
quando a casa vira prédio e especulação!
Quem denota?

Muitas perguntas
poucas respostas
trabalho explorado
cárcere
mais-valia absoluta
quarteirização!
Ninguém revolta!



























terça-feira, 21 de novembro de 2017

Para hacer una poesía

La poesía es el sonido del mar
Es la cáscara de la naranja
Son las olas fuertes o tranquilas
Para hacer la poesía es necesario conocer los dolores de los pobres
Los miedos de una mamá con su hijo(a) enfermo(a)
Lo que pasa la gente en la cárcel
La poesía nos es un grito solo, pero tampoco una sonrisa sin sentido
Para hacerla 
Hay que encontrar los términos
Sufrir con ellos
Tenerles mucha rabia
Cantar cada una de las palabras de la gente hambrienta
La poesía tiene pocas palabras
Sí tiene muchas es un tratado poetico
Es un panfleto que también puede rimar
La poesía está en el corazón del mundo
Pero camina siempre 
Viaja en colectivo
En autos
Pero le gusta a ella andar con los pies en el suelo

             

sábado, 18 de novembro de 2017

Sobre amar

Eu amo tardes em praças
Amo flertes pela janela do ônibus
e
transas fortuitas(assustadas)
em manhãs de domingo