segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Perguntas

O que você faz quando ninguém está te olhando?
Quantas vezes por semana você lava o seu banheiro?
pra você qual é o cúmulo do absurdo?
quais as drogas você já usou?
quais você ainda gostaria de usar?
o que tem debaixo do seu travesseiro?
a vida vale a pena?
você já desejou morrer?
se sim, já chegou às vias de fato? Tipo, já tentou?
Qual a cor da calcinha que você tá usando?
Porque existem quatro tipos de porquês na língua portuguesa?
Pra quê serve o h, se nem é pronunciado?
você sempre abre os olhos quando acorda?
você já teve vontade de pegar uma muda de roupa e sumir no mundo?
Qual a intensidade de um jato de esperma?
Pra quê arrumar a cama se você vai deitar nela de novo?
Qual o motivo da gente ficar tonto diante de um lugar muito alto ou diante do mar?
Quantos litros de água passam em cada segundo do nas cataratas do Iguaçu?
se você pudesse gritar dentro do hospital você gritaria?
por que letra de médico é garrancho?
e por que médico é doutor sem fazer doutorado?
porque a gente nasce sem dente?
como acontece de a gema não misturar no ovo?
se o cavalo pudesse falar, o que ele diria para quem o monta?




sábado, 23 de dezembro de 2017

Pela intransitividade

É preciso (in)trasitividades
além de objetificar os verbos
coisificar os sujeitos
e, abominando regras exploratórias,
fazer novidades


A vida não pode transitar
somente no absurdo do ajuntamento das conjunções
vossas máximas
as exceções
as perversões da letra
não podem ser a primazia

Nós queremos a libertação do nome
a emancipação completa do ser
sendo de fala
ou surdo

A nossa luta cotidiana
na oralidade verdadeira
no limiar da palavra dita
nos conjuga da certeza da vitória

Nossa escrita é feita com sangue
enquanto a vossa é de tinta fresca
Nossa história fica nos cantos dos terreiros
e nosso real não se perfaz de textos e assinaturas

É no dia a dia da vida que traçamos a vida futura
nossos partos são em casa
nosso pé anda no chão

Não lhes pedimos licença para passar
o mundo já é nosso por direito!















quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Condução coercitiva-cotidiana

Quando eles chegam de coturno
chutam a porta
e nem pedem licença
quem se importa?

Quando eles chegam de madrugada
levam meu filho
desaparece o vivo
aparece o corpo
quem se esforça?

Quando a porta já nem chave tem
quando eles nos olham na cara com desdém
quando o helicóptero-cotidiano
barulhento
deixa-nos surdos
deixa-nos mudos
quem acorda?

Quando era chibatada
Quando era tronco
Quando era público o castigo
Quem ignora?

Quando a gente, livre?
trabalhadores violentados
produzindo em série
suando sangue
na linha que despeja carros
quem se arvora?

Quando as mulheres
em casa, nas casas das famílias
família era só a branca com bebês assépticos
enquanto nossos filhos em casa
sem pão e sem educação
quem os nota?

Quando eles nos levam de nossas casas
quando eles nos despejam
quando a casa vira prédio e especulação!
Quem denota?

Muitas perguntas
poucas respostas
trabalho explorado
cárcere
mais-valia absoluta
quarteirização!
Ninguém revolta!



























terça-feira, 21 de novembro de 2017

Para hacer una poesía

La poesía es el sonido del mar
Es la cáscara de la naranja
Son las olas fuertes o tranquilas
Para hacer la poesía es necesario conocer los dolores de los pobres
Los miedos de una mamá con su hijo(a) enfermo(a)
Lo que pasa la gente en la cárcel
La poesía nos es un grito solo, pero tampoco una sonrisa sin sentido
Para hacerla 
Hay que encontrar los términos
Sufrir con ellos
Tenerles mucha rabia
Cantar cada una de las palabras de la gente hambrienta
La poesía tiene pocas palabras
Sí tiene muchas es un tratado poetico
Es un panfleto que también puede rimar
La poesía está en el corazón del mundo
Pero camina siempre 
Viaja en colectivo
En autos
Pero le gusta a ella andar con los pies en el suelo

             

sábado, 18 de novembro de 2017

Sobre amar

Eu amo tardes em praças
Amo flertes pela janela do ônibus
e
transar fortuitas(assustadas)
em manhãs de domingo



segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Crônica-conto das acerolas*

                 Caminhando pelas estradas de Olinda deparo-me com um vendedor de frutas. Trazia numa bicicleta  um cesto de palha repleto de frutas das mais coloridas possíveis. Avistava-lhe ao longe e aproximei-me quando, de repente, caem-lhe parte de suas frutas no chão. Aquelas frutas de um vermelho-sangue, saindo vida do cesto amarelo-claro. O susto que o acometeu me contagiou e como se me tragasse pelos olhos corri para socorrê-lo, e, ao mesmo tempo se nos vinham pessoas de todos os lados.
                   Ao mesmo tempo em que, catava-lhe as frutas, pensava:" De onde saíram tantas pessoas?" Ele, num átimo de vergonha e medo dizia-nos:" Olhe! Está bom! Não precisa catar mais!" Como se fosse dele uma travessura de menino,como se tanta gente acolhendo-o em sua fragilidade, o colocasse em uma situação de exposição pública! Uma das pessoas, uma mulher num sorriso:" Não! Elas estão tão bonitas! Vamos catar tudo!" E eu, em meio às futas mais suculentas que já tinha visto espalhadas pelo chão sorria como se pensasse:" As pessoas são generosas, há alguma coisa por dentro ainda para superar esse mal do mundo, essa coisa chamada ganância, esse medo de estar com medo!'
                  A coisa acontece em minutos e, de volta todas as bolinhas vermelhas no cesto, ele sorri e agradece. A bicicleta segue em caminho contrário ao meu. Sigo feliz porque alguém segue bem. Ao final do caminho encontro o mar, sóbrio e calado. Num dia chuvoso de uma cidade linda, que até grita:" Ó!Linda!"



* que me perdoe o fruteiro, não fotografei suas acerolas para que seja vívida a história. Esta que vos vai aqui é de pai e mãe, do quintal daqui de casa.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Para o crivo do poeta


À passagem da palavra
submeto escrita torta
Não há dor mais sofrida
que essa letra morta

À prescrição da gramática
A subversão prosaica
Não existe poesia-regra
Nem sociedade justa-laica

Sou apenas caçador de palavras
Tentativa verbo-ourives
Minha boca não mais fala
Escrevo apenas cicatrizes