segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

A "perda" dos meninos

Ontem foi o Pedro,
anteontem o Kadu
alguns dias atrás os meninos da concentração do Urubu

Cada dia uma mãe que chora
Cada lágrima que não sabe a hora
o que nós sabemos é que essa realidade vem
em nu e cru

O corpo negro estendido
ou o corpo que dança ferido
a revolta do povo
não tem norte
tem sul!

O medo branco estendido ao genocídio
é insuficiente
para tornar inerte a febre
por samba
alegria
é preciso reverberar o que se pode
com rap
funk
tambores
soul
e blues










segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Aos inimigos, a nossa alegria




Aos que estão do outro lado da trincheira
Nem um minuto da nossa melancolia
Só fogos de artifícios e alegria

A quem emana descaso
Quem ganha por patifaria
Só a nossa afronta
Nossa vontade
Nossa sabedoria

A quem nos mata
Nos prende
Nos explora, por trabalho
Por corpo
Por abusar do nosso ser, filosofia
Entreguemos nosso ódio em forma de força
De SINFONIA!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A arte não serve pra nada



Arte serve pra repetir
Quase neuroticamente
É pra cansar
Pra doer
Repetir, repetir
Repetir
Até virar verdade

A arte não serve pra dar alegria
Nem pra desejar mudança
É pra dar um soco
Quebrar a cara
Vomitar
Cuspir

Arte é sujeira jogada em cima da hipocrisia dos falantes
Seres que falam
Pensam que pensam

Arte é pra adoecer
Encher de dúvida
Ser dos pobres
Embora seja ricamente apropriada

Arte não é pra perdoar pecados
Não tem receita
Simplesmente sai
De dentro das vísceras
Causa nojo
Espasmo
Arritmia!

E desfaz a prepotência 
De quem se acha 
Artista

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Esse poema é pra toda mulher presa




Esse poema não sabe nada de teoria poética
Nem de métrica
Nem de simetria
Esse poema sangra todo mês por natureza(?)
A mulher que sangra sem poder absorver 
a mulher que não tem nada de higiênico para absorver o sangue da vida
a mulher presa em todo cárcere
a mulher transexual presa
e aquela presa nos familiares
Ele chora todo mês ou semana de visita

Esse poema é pra mãe negra que chora o filho morto
Ou a esposa que sangra na alma o marido preso
Esse poema não conhece a vida doce das madames
Nem se interessa com seus vinhos, seus vexames
Ele sabe em que lugar, de classe, está colocado

Esse poema não é decassílabo
E nem tem rima rica
De rico aqui só nosso ódio
Só o que sobra do vestígio
Daquilo que te faz besta fera
Que te coloca de nádegas abertas
Nas filas de visita
No sol, na chuva ou na brisa

Esse poema faz planos
Faz comida nova no domingo
Coloca na marmita
Assa bolo e faz de tudo que é possível!
Para lá, dentro da cadeia
Na portaria,
Retirarem pedaço por pedaço,
Procurando chip.
Procurando um clips.
Tentando criminalizar aquela família

Esse poema é também, quem sabe, pra mulher presa em abusos
De homens e de mulheres!

Esse poema é pela não prisão de ideias!!!!

Esse poema não acredita em nada que venha de uma grade
Só é possível em liberdade
Esse poema não tem rima, nem tem medo.





sábado, 17 de novembro de 2018

Com outro gosto de café e de vida*



                             O silêncio da casa de Margarida aciona no espectador a agonia do inusitado, ao mesmo tempo em que, prevê o impacto contraditório pela cenas alegres e barulhentas do princípio do filme.
                             Café com canela, além de um passeio pela magia do cinema é a captura do espectador para entrada em seu interior, sem espaço para fuga de pensamento. Como nas próprias palavras de Margarida: "um bom filme quer te experimentar e ser experimentado!"
                             Também, e não menos, a maestria da jovem Violeta que; sendo mãe, cuidadora da avó, salgadeira, esposa, consegue de forma doce, mas de forma incisiva uma porta de saída do luto de sua antiga professora.
                             Café e canela, café com canela é a retomada do sabor da vida, é a força do(a) negro(a), é a sabedoria da religiosidade de matriz africana e, junto com tudo isso, o poder feminino no lidar com: o luto, a perda, a depressão, a morte, com a tentativa de recolocar o laço da vida em seu lugar.
                            E tempos de desgostos, canela e café é reviver o gosto, o quente, o brilho.




**

































* sobre o Filme "Café com Canela, de Ary Rosa e Glenda Nicácio, Brasil, 2017. Ficção 100m, exibido na Mostra de Cinema e Direitos Humanos em Belo Horizonte

** fotografia de divulgação retirada do Google

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Nós sim, eles não


Nós temos medo
Eles também
Nós admitimos
Eles não

Nós seguimos adiante com verdade
Eles não

Nós temos história
eles não

Nós sobrevivemos à outras ditaduras
Eles NEM sabem do que se trata e,
idiotamente
defendem uma

Nós não vamos parar NUNCA
Eles, nem nunca vieram








sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Lava jato

Eu queria fazer um conto sobre os meninos que trabalham cedo aqui no bairro
sete da manhã, faz frio, e já estão com botas, mangueira ligada, preparados
lavam carro durante todo o dia

Eu queria ser capaz de contar, como contista mesmo, a profundidade disso
a relevância dessa cena
a barbaridade de não estar em escola ou espaço cultural
talvez não estar vivendo a melhor parte da vida

A vida é jato
passa num átimo
não te deixa pensar muito
a vida se satisfaz em não te deixar saber

Eu quero ser contista para essa cena fazer fissura na vida de quem passa
para que cada pessoa que passe ali
saiba que,
diante daquela cena, ou sob ela
dá-se nesse país
aqui abaixo da Linha do Equador
a matança de jovens como esses meninos da minha rua

Eu queria saber fazer conto-manifesto
poesia-denúncia

para que, pelo menos lendo
alguém entendesse que se fez lava a(à?) jato política
que meninos lavam carro com jato de água

mas que a vida que lhes é tirada
seja no tiro
seja no trabalho forçado
essa vida não é contada
essa vida não conta.